Ivoti como você nunca viu: dicas, roteiros, histórias e tudo que a cidade oferece
Ivoti, localizada a apenas 55 km de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, é uma cidade charmosa, acolhedora e cheia de história.
Conhecida como a Cidade das Flores, seu nome vem do tupi-guarani Ipoti-catu, que significa “Flor Bonita”.
Para quem busca um destino tranquilo, repleto de natureza, cultura e bons eventos, Ivoti é uma parada obrigatória na Rota Romântica.
Como Chegar em Ivoti
O acesso principal à cidade é pela BR-116, no km 231, sentido norte.
É uma excelente alternativa para quem vai à Serra Gaúcha, pois o trajeto, por dentro de Ivoti, economiza cerca de 10 km até Picada Café, além de evitar o tráfego intenso da rodovia.
Turismo em Ivoti: Uma Experiência para Todos os Sentidos
Ivoti é o tipo de lugar onde sempre há algo para fazer — ou, até mesmo, não fazer.
Isso mesmo: a contemplação faz parte da experiência turística aqui.
São praças, trilhas, mirantes e paisagens que tiram o fôlego — mas só de emoção, pois ar puro não falta.
Na primavera, as flores perfumam cada canto da cidade.
No outono, os plátanos avermelhados encantam os visitantes.
E no inverno, as lindas cerejeiras dão um show, com suas delicadas flores.
Antes de tudo, é preciso lembrar que existe uma exaustiva pesquisa sobre a história de Ivoti, que abrange fatos ocorridos desde o seu início (1826) até a sua emancipação política (1964). Trata-se de uma obra de nível acadêmico que teve a participação de 32 autores/coautores, além de diversos colaboradores. Sua referência bibliográfica é “KREUTZ, Roque Amadeu (organizador). Bom Jardim-Ivoti no palco da história. Novo Hamburgo, Feevale, 2013.” Essa publicação está estruturada em 07 partes, cada qual com diversos capítulos, nos quais estão identificados os respectivos autores/ coautores e as fontes de cada pesquisa (bibliografia, depoimentos, etc.). Portanto, para um conhecimento mais profundo e detalhado da história de Ivoti, os interessados deverão ler ou consultar o livro, Bom Jardim-Ivoti no palco da história.
(Pesquisa original: Gabriela Dilly e Ana Paula Korndörfer)
Por Desconhecido – Arquivo Nacional, domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=63469224
Vestígios arqueológicos indicam que esta região já era habitada por nativos da Tradição Umbu há dez mil anos.
Escavações do Instituto Anchietano de Pesquisas, sob a coordenação de Padre Inácio Schmitz, feitas num abrigo “sob-rocha” situado em Lindolfo Collor, comprovam esse fato.
Antes da chegada dos imigrantes germânicos, indígenas caingangues ocupavam esta região, considerando-a seu território de coleta, caça e pesca.
Embora a sede principal ficasse no Campo dos Bugres, atual Caxias do Sul, grupos de caingangues acampavam periodicamente nesta região, deixando vestígios de sua cultura.
Alguns objetos de sua fabricação, tais como fragmentos de cerâmica, pontas de flecha, foram encontrados por Herta Patro e outras pessoas no território da atual cidade de Ivoti e arredores.
A convivência dos indígenas com os primeiros imigrantes germânicos
(Pesquisa feita especialmente para o presente resumo, por Roque Amadeu Kreutz)
Parece não haver registros históricos nem relatos transmitidos oralmente que descrevem uma convivência harmoniosa entre indígenas locais e os imigrantes alemães de Bom Jardim e arredores.
Pelo contrário, há fatos transmitidos por tradição que lembram uma convivência conflituosa entre essas etnias.
Herta Sporket Patro, em seu livro “Ivoti um pontinho no mapa” (publicação da própria autora lançada em 17/12/1997, pp. 7-8) registrou alguns depoimentos orais:
“Os imigrantes, cada um no seu lote de terra, derrubaram a mata, construíram suas choupanas e finalmente plantaram suas roças. Mas aí vieram além dos animais selvagens também os índios para colher o que não plantaram, incendiar e matar. O senhor Gälzer entrou no mato a procura de seu cavalo e nunca mais voltou. Três anos mais tarde também sua mulher foi morta na roça. Na vizinhança, no Rosenthal, os selvagens assaltaram cinco casas, roubaram, incendiaram e mataram todos, menos uma menina, que tirou o nenê do berço e se escondeu no mato. Por estes motivos os colonos resolveram residir juntos no passe (passagem de carroça) do rio Feitoria.”
A citação acima é literal.
Mesmo sem revisão gramatical, é um registro que merece reflexão e elogio. No entanto, se representasse a versão dos indígenas, certamente destacaria que sua área tinha sido invadida por estrangeiros e que, por isso, teria que ser defendida pelos nativos.
Quem eram os primeiros imigrantes de Ivoti, de onde vieram e o trajeto das famílias
(Pesquisa original: Roque Amadeu Kreutz)
Desde 1824, é comum denominar grande parte dos moradores desta região de imigrantes alemães, qualificativo que, ainda hoje, é atribuído a seus descendentes.
Essa denominação fundamenta-se no fato de que muitos pioneiros eram falantes de dialetos alemães.
No entanto, originariamente eles pertenciam a nações diferentes, já que a Alemanha (unificada) somente começou a existir em 1871.
Até essa data, a Germânia era formada por mais de trinta Estados independentes, cada um com o seu próprio governo.
Apesar dessa independência, os Estados Germânicos se uniam nas guerras para combater inimigos comuns, isso porque todos se consideravam germânicos.
Portanto, antes de 1871, os imigrantes germânicos eram oriundos de vários Estados autônomos.
Informação sobre a origem dos imigrantes pioneiros da Freguesia de Bom Jardim é a seguinte:
Os povoadores da região provinham de vários Estados da Confederação Alemã. O levantamento feito em duas relações de antigos imigrantes, uma apresentada por Petry e outra por Schlisz (sic) permitiu apurar que, das pessoas ali inscritas, 35 eram naturais da Renânia, 28 da Baviera, 20 da Prússia, 9 do Holstein, 6 de Würtenberg, 4 de Hesse-Darmstadt e uma de Hanover. (COPSTEIN, Raphael; COPSTEIN, Gisela. 1967. Separata da Revista Organon, Porto Alegre: Faculdade de Filosofia da UFRGS, n.12, p. 41-64.)
Quer dizer, a maior parte dos imigrantes de Ivoti e arredores provinham do sul e sudoeste da Alemanha (Renânia, Baviera, Prússia ocidental).
Grande parte dessa região era (e ainda é) conhecida como Hunsrück.
Seu dialeto alemão, igualmente denominado Hunsrück, tinha apenas pequenas variações.
Esse idioma se tornou predominante na região dos imigrantes germânicos pioneiros.
No período das emigrações, as condições de vida dos colonos, em suas pátrias de origem, eram extremamente difíceis.
Para sobreviverem, enfrentavam muitas dificuldades. Suas propriedades rurais eram constantemente devastadas por guerras.
Além disso, tornavam-se cada vez menores em decorrência de heranças.
Por isso, os colonos e suas famílias se viam forçados a fazer serviços artesanais (terceirizados) para as indústrias emergentes, e isso por um preço vil.
Por outro lado, o regime de servidão existente nas grandes propriedades tinha sido abolido, atingindo agricultores de várias regiões da atual Alemanha.
Os ocupantes dessas terras eram despejados de suas moradias, sem saberem como sobreviver e para onde ir.
Sem eira nem beira, muitos deles, sob a acusação de pequenos furtos e de serem “vadios”, foram encarcerados.
Essa precária situação também se tornara um problema para os próprios governantes, já que não encontravam soluções razoáveis para muitos casos.
Foi durante essa crise humanitária nos Estados Germânicos que o Major Schäffer foi designado por Dom Pedro I, logo depois da independência do Brasil, para alistar interessados em emigrar.
O governo imperial brasileiro queria ocupar as terras devolutas do sul e defender suas fronteiras.
Apesar das dificuldades enfrentadas e das acusações que sofreu, Schäffer cumpriu sua missão: conseguiu, além de colonos empobrecidos, presidiários, soldados para reforçar as Forças Armadas do Brasil, sobretudo para combaterem na Guerra Cisplatina.
Muitos desses soldados tiveram que emigrar disfarçados de colonos, pois os governos de suas nações de origem apenas permitiam a emigração de agricultores e suas famílias.
Um grande problema dos emigrantes era enfrentar sua mudança: deixar a terra natal para sempre; despedir-se dos familiares e amigos; levar suas tralhas, primeiro de carroça até um porto fluvial e, depois, para um porto marítimo no norte da Europa.
Lá tinham que aguardar por semanas até a saída do navio.
Ao embarcarem; eram obrigados a se instalar mal em dependências rudimentares de veleiros (muitas vezes em porões poluídos), para então enfrentarem uma viagem marítima cheia de tempestades, ou de longas calmarias.
Era uma trajetória miserável que durava meses, geralmente com falta de comida e água.
Muitos emigrantes ficavam doentes, morriam no navio e eram sepultados no mar.
Houve também pessoas que entravam em depressão e se suicidavam.
E, nessas condições, também aconteciam abortos espontâneos, além de nascimentos naturais com pouca ou nenhuma assistência.
Quando os imigrantes finalmente chegavam ao Brasil, eram alojados em construções improvisadas na “Armação” (atual Niterói).
Novamente, tinham que aguardar intermináveis dias ou semanas para serem transportados, em navios menores, até o sul, desembarcando na cidade de Rio Grande.
De lá, a viagem prosseguia pela Lagoa dos Patos até Porto Alegre e, finalmente, pelo Rio dos Sinos, até a Feitoria (Velha), no atual território de São Leopoldo.
Eram, então, alojados em barracos de escravos ali existentes desde o fechamento da Feitoria de Linho e Cânhamo. Ali, novamente, enfrentavam uma longa espera até que lhes eram destinadas terras.
Finalmente, recebiam ferramentas e alguns animais domésticos para se mudarem para as suas propriedades, inicialmente nos arredores do então povoado de São Leopoldo e, depois, em Dois Irmãos, Bom Jardim, Quarenta e Oito Colônias, Linha Café, São José do Hortêncio.
Para as famílias destinadas às incultas terras de Bom Jardim, foi erguido um acampamento temporário na “Entrada”, onde hoje se situa o Bairro das Rosas (Rosental) de Estância Velha.
Era lá que começava a numeração das colônias de Bom Jardim, formada por 54 lotes.
Havia uma trilha precária pelo travessão central aberto pelos agrimensores, com marcos nas cabeceiras dos lotes rurais das alas leste e oeste, ou seja, à direita e à esquerda para quem saísse do acampamento.
Situação semelhante acontecia nas demais picadas que, futuramente, iriam formar o distrito de Bom Jardim.
Também é importante registrar que, depois da Guerra Cisplatina, vários ex-soldados germânicos se tornaram agricultores em diversos lugares, inclusive na Picada Quarenta e Oito.
A ocupação das terras e desenvolvimento inicial de Ivoti
(Fragmentos das pesquisas originais de Ademir Rost, Roque Amadeu Kreutz, Herbert Fritsch, Pronila Krug e outros)
Aos poucos, os imigrantes alemães foram ocupando suas terras.
Enquanto as mulheres e crianças permaneciam no acampamento do Rosental, os homens e os rapazes procuravam localizar o lote destinado à respectiva família.
Penetrando na mata, abriam uma clareira em sua propriedade e construíam moradia e instalações provisórias.
As paredes eram feitas de madeira roliça ou lascada, e a cobertura, de folhas de palmeira ou material semelhante.
A fixação dos esteios, caibros, escoras e demais materiais era feita com amarras de cipó.
As paredes externas eram preenchidas com folhas retiradas da mata, ou com barro. O piso era de chão batido.
Somente mais tarde as construções seriam feitas de madeira lascada e falquejada (madeira quadrada, tábuas e tabuinhas para a cobertura).
E, com o tempo, as casas passariam a ser construídas no estilo enxaimel, embora suas vigas, esteios, barrotes, caibros, escoras, postes, tabuinhas de cobertura continuassem a ser lascados e falquejados.
O preenchimento das paredes passou então a ser de pedras grés, fixadas com barro, não raro misturado com estrume.
O início do povoamento de Bom Jardim aconteceu, provavelmente, dois anos depois da chegada dos imigrantes alemães a São Leopoldo.
Há registros religiosos de que, em 1826, já havia alguns moradores aqui.
Embora recebessem uma minguada assistência do governo, as principais necessidades dos novos proprietários e seus familiares dependiam do próprio trabalho.
As roupas do dia a dia eram fabricadas em casa, com fios de algodão e linho-cânhamo.
Produtos artesanais e produtos agrícolas excedentes da produção familiar eram negociados em pequenas “vendas de troca-troca” que iam surgindo na colônia.
E, nas proximidades desses estabelecimentos, iam surgindo pequenas comunidades religiosas e escolares, tudo por iniciativa da população.
Assim sendo, no contexto dos primórdios de Bom Jardim/Ivoti, as lideranças locais eram predominantemente colonos, professores, padres católicos visitantes e pastores protestantes itinerantes.
Com a criação das comunidades religiosas e educacionais, eram eleitas diretorias, que, juntamente com professores, tinham voz ativa na solução de problemas locais.
Além disso, destacava-se a liderança dos donos das vendas (comerciantes), graças às noticias e outras informações que traziam de centros maiores e as partilhavam com seus clientes.
As guerras e seus reflexos locais
Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos
(Pesquisa original: Roque Amadeu Kreutz)
Guilherme Litran: Carga de Cavalaria, óleo sobre tela, 1893 acervo do Museu Júlio de Castilhos, Porto Alegre, Brasil
Visão panorâmica do conflito
Entre 20.09.1835 e 01.03.1845, período da Revolução Farroupilha, o Brasil era um Império recém-criado (07/09/1822), e o Rio Grande do Sul, uma de suas províncias
Em 25 de julho de 1824, quando desembarcaram os primeiros imigrantes alemães à margem do Rio dos Sinos, o Imperador do Brasil D. Pedro I era casado com Dona Leopoldina, arquiduquesa da Áustria, portanto, da nobreza “alemã”.
D.Pedro I – Museu Imperial de Petrópolis, domínio públicoPrincesa Leopoldina – Sousa, Octávio Tarquínio de. A Vida de D. Pedro
Assim, durante o reinado desse monarca, os imigrantes alemães se sentiam protegidos pelo Casal Imperial.
Todavia, essa situação mudou a partir de 07/04/1831, quando Dom Pedro I abdicou a favor de seu filho Dom Pedro II, que então tinha apenas cinco anos.
Por isso, entre 18/06/1831 e 23/07/1840, a administração do Império ficou a cargo de Regentes, sob cujo governo estourou a Revolução Farroupilha.
O período regencial terminou quando Dom Pedro II foi declarado maior (com 15 anos).
Entretanto, depois que D. Pedro II assumiu o comando do Império, a Revolução Farroupilha ainda continuou por mais de quatro anos.
Aqui, na então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, durante a década de 1830, acirrou-se a oposição política liderada pelos liberais.
Além de serem contra a política centralizadora e unitária do Regente Imperial, estavam insatisfeitos com o constante recrutamento de riograndenses para o exército, cujo objetivo era garantir a defesa das fronteiras do Brasil, na divisa com os países da bacia do rio da Prata.
A esses e outros fatores de revolta política, somavam-se fatores econômicos, entre os quais problemas de manutenção das charqueadas sul-riograndenses.
Então, sob a liderança de Bento Gonçalves, os liberais organizaram suas forças militares e, em 20 de setembro de 1835, tomaram Porto Alegre, colocando em fuga o Presidente Fernandes Braga.
De imediato, empossaram o vice-presidente Marciano Ribeiro e designaram o Cel. Bento Gonçalves da Silva para Comandante de Armas.
Entretanto, poucos meses depois, isto é, em 15 de junho de 1836, as forças imperiais, sob o comando de Marques de Souza, reconquistaram a capital.
Não conformados com essa perda, os farroupilhas cercaram Porto Alegre durante meses, ao mesmo tempo em que enfrentavam duras batalhas no interior.
Uma delas aconteceu nos campos do Seival, onde obtiveram significativa vitória.
Foi lá que, no dia 11 de setembro de 1836, o General Antônio de Souza Neto, proclamou a República Riograndense, declarando-a separada do Império Brasileiro.
Sob a presidência de Bento Gonçalves e vice-presidência de Gomes Jardim, a República Riograndense teve várias sedes, a partir das quais combatia os imperiais para consolidar a sua independência.
No entanto, em dezembro de 1842, Luís Alves de Lima e Silva, Barão de Caxias (futuro Duque), foi nomeado Presidente da Província do Rio Grande do Sul.
Sob o seu governo, as lutas foram diminuindo, passando a haver conversações de paz.
Esta aconteceu no dia 1º de março de 1845, em Poncho Verde.
A Revolução Farroupilha durou nove anos e meio (20.09.1835 – 01.03.1845), mas a República Riograndense durou apenas oito anos e meio (11.09.1836 – 01.03.1845).
É importante ressaltar que, ao lado do governo da república independente dos farroupilhas, continuava existindo o governo da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, vinculada ao Império Brasileiro.
Em 1835, quando começou a Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos, a maioria dos imigrantes, fixados no Vale do Rio dos Sinos, já possuía uma propriedade.
Estes não apenas eram repletos de gratidão para com o governo imperial, que lhes havia dado uma nova pátria, como também tinham vivido em estados germânicos monárquicos.
Por isso os imigrantes germânicos eram, se mostraram mais favoráveis ao Governo Imperial do que aos revolucionários.
Certamente a participação dos imigrantes em lutas contra os farroupilhas nos arredores do Porto Alegre, foram as atuações mais significativas.
A Companhia Alemã, da qual faziam parte pelo menos oito bom-jardinenses (ivotienses), integrou uma divisão do exército imperial que atacou contingentes farroupilhas em Gravataí e Viamão.
Nessa divisão, encontrava-se o major germânico Ferdinand Kersting.
Com toda a certeza, a oscilação política dos colonos alemães no decorrer da guerra, foi uma constante.
Desta forma, quando os farroupilhas conseguiam a supremacia, todos tinham que se declarar republicanos.
Ou seja, dependendo da força dominante, os jovens imigrantes eram obrigados a se juntar a qualquer uma das tropas.
Muitas vezes, um dos irmãos estava do lado dos imperiais, e outro, dos revolucionários.
Assim, houve significativas discórdias nas Picadas e no seio das famílias.
No clima da guerra, tanto farrapos como imperiais supriam as necessidades de suas tropas pelo confisco de gêneros alimentícios, cavalos, gado, porcos, aves dos colonos e, não raro, extorquiam-lhes dinheiro e outros bens móveis.
Tudo isso contribuía para que o bom relacionamento fosse, aos poucos, se deteriorando.
De modo que ódio, discórdia, inveja e maledicência faziam com que uns traíssem os outros.
Delatava-se ao inimigo onde os desafetos haviam escondido seus animais e outros bens.
As Picadas que, por algum período da história, faziam parte do atual município de Ivoti não foram campos de batalha entre farrapos e caramurus.
Todavia, foram locais de escaramuças e saques, tanto que suas ocorrências aterrorizavam a população durante o conflito.
Além das extorsões feitas aos imigrantes locais, houve também torturas e mortes.
Embora, na listagem dos integrantes das tropas em confronto, se encontrem moradores de nossas Picadas em ambos os lados, os fatos ligados aos farrapos são narrados de maneira mais acusadora do que os vinculados aos imperiais (caramurus).
Ou seja, os autores consultados na pesquisa original apresentam uma clara versão a favor dos imperiais.
Nomes como Lavald, Johann Adam Noschang (Moses), Catarina Karlsinger, Fries, Peter Cassel, Johannes Finger (Fingerhannes) são identificados como farroupilhas.
O primeiro deles foi vítima de uma refrega com Morschel, sendo enterrado clandestinamente pelo vencedor.
Outro farrapo, Noschang, esteve nas fileiras farroupilhas no cerco a Porto Alegre.
A senhora Karlsinger, por sua vez, era suspeita por receber constantemente a visita do farrapo Matias Bursch, possivelmente um espião.
Também consta que, em janeiro de 1837, Jacob Paulcaspar, da Picada Bom Jardim, foi preso por rebeldia e conduzido a Porto Alegre.
Além disso, em 26.1.1837, depois de uma busca de armas entre os rebeldes, o Inspetor José Correa Ferreira da Silva passou a “Picada Berghan” (atual Ivoti), onde encontrou armas em diferentes casas de alemães rebeldes, entre os quais:
Pedro Klos,
Jacob Klos,
Carelo Kruel,
Handerique (Heinrich) Laudaur (Landauer),
Pedro Espingarda, Felipe Musckopf,
Jacope (Jacob) Weisheimer,
Jacó Mossmann,
João Becker Pequerã,
João Quetemes,
Matheus Weber,
João Finger,
Pedro Vairick,
João Laussermann,
Pedro Noschang,
Miguel Keine.
(Os nomes com essa grafia foram assim registrados erroneamente pelo inspetor…)
Há fontes históricas afirmando que, em Bom Jardim prevaleciam os farrapos e, na Picada Quarenta Oito, os imperiais, já que lá moravam vários ex-soldados que tinham participado da guerra da independência do Brasil.
Estes haviam recebido em pagamento, em 1828, lotes na Picada Quarenta Oito.
Rapazes como Reichert, Schmedding, Tockorn, Arndt, Scheibel e Morschel estavam entre eles.
No entanto, havia também aqueles que lutavam dos dois lados.
Michael Schenkel era uma dessas pessoas.
Aos 76 anos, fez um depoimento histórico ao pesquisador Pe. Schlitz. [Falou que viera ao Brasil com seis anos. No início da “guerra”, quando tinha 16 anos, um dia estava escondido no alto de uma rocha e testemunhou a trágica execução de Johann Nedel. Mais tarde, alistou-se nas fileiras farroupilhas, com a justificativa de que seu sogro temia que estes confiscassem sua única vaca e seus cavalos, uma vez que, nesse período, eram dominantes nas colônias. Mas, depois de um ataque frustrado dos farrapos a Porto Alegre, Schenkel retirou-se com eles a São Leopoldo, onde chegou a saber que os imperiais tinham conseguido se reorganizar nas colônias. “Noth bricht Eisen” (Necessidade quebra ferro) pensou ele e, com mais dois companheiros, fugiu a cavalo para Bom Jardim. Pouco depois, inscreveu-se nas tropas imperiais (caramurus) e, mais tarde, fez parte da “Deutsche Compagnie” (Companhia Alemã). Também foi encarregado por seu superior para uma missão junto a Tatsch, na Picada 48. Tatsch, assumiu então o comando de um piquete de 24 homens. Schenkel, depois de ter participado de várias lutas, conseguiu baixa das fileiras imperiais.
Artigos históricos do Pe. Schlitz indicam que os seguintes moradores locais eram imperiais (caramurus):
Jakob Tatsch,
Gehring,
Jacob Jung,
Spindler,
Kehl,
Peter Schneider,
Friedrich (Fritz) Fröhlich,
Johann Fröhlich,
Peter Fröhlich,
Peter Schreiner, Berlitz, outros dois de sobrenome Mallmann e Kalsinger, o inspetor Pfeilstricker, além de oito jovens de Bom Jardim não mencionados.
Na lista dos soldados da “Deutsche Compagnie” (Companhia Alemã), também foram mencionados os nomes de:
Michael Schenkel e Daniel Fries, de Bom Jardim;
Jakob Tatsch, o alferes, da Picada 48;
Nicolau Feldes e Franz Trein, das 14 Colônias.
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CASOS ESPECÍFICOS
Várias colonizações, tais como Quarenta e Oito, Linha Café, Costa da Serra e Quatorze Colônias, faziam parte da Freguesia de São Pedro de Bom Jardim e/ou do antigo distrito de Bom Jardim/Ivoti.
Assim, os casos aqui apresentados situam-se nessa área. No entanto, não estão em ordem cronológica e, por vezes, não estão bem situados no tempo. É uma falha da obra consultada – “Cronik von Bom Jardim” do Pe. Carlos Schlitz – baseada em depoimentos orais.